Campanha Janeiro Branco promove escuta, reflexão e cuidado com a saúde emocional dos colaboradores nos Hospitais Adventistas de Belém e Barcarena.
Ainda era cedo quando o auditório do Hospital Adventista de Belém começou a se encher. Acostumado a operar em ritmo constante, o hospital parecia desacelerar por alguns instantes. A rotina intensa dava lugar a algo pouco frequente no dia a dia assistencial: parar, respirar e olhar para dentro. Era o início de uma manhã pensada para o cuidado — não apenas com o outro, mas também consigo.
Esse clima de pausa e escuta marcou a Reunião de Motivação para a Missão (RMM), realizada na quarta-feira (28), que encerrou as ações da campanha Janeiro Branco, desenvolvidas ao longo de todo o mês nas unidades adventistas de Belém e Barcarena. Mais do que um evento pontual, a RMM simbolizou o fechamento de um ciclo de reflexões construído coletivamente, reafirmando o compromisso institucional com a saúde mental e o bem-estar emocional dos colaboradores.



Quando falar alivia
Durante quatro semanas, os Hospitais Adventistas de Belém e Barcarena viveram o Janeiro Branco a partir de uma proposta simples e profunda: falar. Nos Pequenos Grupos dos setores, rodas de conversa semanais abriram espaço para temas que atravessam o cotidiano hospitalar — estresse, burnout, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, gestão das emoções e inteligência emocional.
A psicóloga Quiraele Santana explica que refletir sobre propósito no trabalho é essencial para fortalecer a saúde emocional dos colaboradores, especialmente em ambientes marcados por alta pressão. Segundo ela, encontrar sentido no que se faz contribui para o desenvolvimento da resiliência, melhora a forma de lidar com o estresse e favorece relações mais positivas no ambiente profissional.

Ao comentar as vivências das rodas de conversa, Quiraele destaca que os encontros criaram um espaço seguro de aproximação entre as equipes, permitindo que os colaboradores se sentissem à vontade para compartilhar sentimentos e desafios da rotina. “Falar sobre o estresse das vivências do dia a dia, poder compartilhar as pressões do trabalho e as demandas trouxe alívio. Poder falar e ser ouvido fez diferença”, relatou uma das participantes ao descrever a experiência vivida nos encontros.
De acordo com a psicóloga, iniciativas como o Janeiro Branco reforçam a importância de manter o cuidado com a saúde emocional para além de um mês específico. Para ela, falar sobre emoções não deve ser algo pontual, mas um exercício contínuo. “Para dar sentido ao nosso trabalho, precisamos cuidar também daquilo que dá sentido à nossa vida, que é a saúde emocional”, afirmou, ao destacar que as rodas de conversa seguirão acontecendo ao longo do ano como parte desse compromisso institucional.
Os registros desses momentos, apresentados em vídeo durante a RMM, traduziram em imagens aquilo que nem sempre aparece nos indicadores: escuta, pertencimento e conexão entre pessoas que compartilham a mesma missão.
Um começo marcado por acolhimento e espiritualidade
A programação da RMM começou com uma reflexão conduzida por uma colaboradora, que falou sobre autocuidado sem fórmulas prontas, a partir da vivência de quem conhece o peso da rotina hospitalar e a importância de reconhecer limites. Ao apresentar a campanha, explicou como, ao longo do mês, os setores foram convidados a transformar encontros simples em espaços de conversa, acolhimento e partilha.
Na sequência, cânticos de louvor e orações intercessoras mudaram a atmosfera do ambiente. O barulho cotidiano deu lugar ao silêncio atento. Para o capelão hospitalar Vanderson Macedo, aquele momento refletia um movimento que vinha sendo construído ao longo de toda a campanha: maior abertura emocional e disposição dos colaboradores para cuidar não apenas das questões físicas, mas também da dimensão espiritual da vida.




Segundo ele, a espiritualidade fortalece o senso de pertencimento e ajuda o colaborador a compreender sua trajetória — de onde vem e para onde está caminhando — impactando diretamente a forma como enfrenta os desafios do trabalho. “Quando buscamos esse relacionamento com Deus, encontramos direção, discernimento e companhia para a caminhada. E é impossível que isso não alcance também o nosso ambiente de trabalho”, afirmou.
Vanderson observou ainda que, durante os momentos de oração, foi possível perceber o envolvimento dos setores e o retorno espontâneo dos colaboradores, muitos deles relatando que aquelas reflexões dialogavam diretamente com suas necessidades pessoais. Para ele, o Janeiro Branco evidenciou que a busca pela presença de Deus não deve ser pontual, mas parte contínua da vida, influenciando todas as áreas — inclusive o cuidado que se expressa no dia a dia do hospital.
Cuidar de pessoas também é estratégia
Durante a programação da RMM, a gerente de Recursos Humanos Michele Monteiro utilizou o encontro para lançar oficialmente o Núcleo de Capacitação e Pesquisa (NCP), estrutura criada para integrar educação permanente, treinamento e desenvolvimento, ensino e pesquisa dentro da instituição.
Segundo Michele, o NCP nasce para enfrentar um dos principais desafios da saúde hoje: aproximar a formação acadêmica da prática assistencial. Para ela, muitas vezes esses dois universos caminham de forma distante, e o papel do núcleo é justamente fazer essa ponte. “Um dos maiores desafios que nós temos hoje é integrar a academia, que é a formação do profissional, com a prática. O Núcleo surge para fazer essa interseção e levar a melhor ciência até a beira do leito do paciente”, explicou.

Atualmente, o NCP conta com uma equipe multidisciplinar composta por gestão administrativa, coordenação técnica, médico, enfermeira, psicóloga e suporte administrativo, atuando em frentes como capacitações técnicas e comportamentais, estágios, residências, programas de trainees, educação continuada e fomento à pesquisa científica.
Ao falar sobre a relação entre saúde emocional e gestão de pessoas, Michele reforçou que, em um hospital, não é possível separar o profissional da pessoa. Quando o emocional não vai bem, isso se reflete rapidamente no desempenho, nas relações interpessoais e no cuidado ao paciente. “O propósito nos lembra por que escolhemos estar aqui e o impacto do nosso trabalho na vida das pessoas. Quando o colaborador entende esse porquê, ele se fortalece emocionalmente e entrega mais qualidade”, afirmou.
O corpo também dá sinais
Na sequência, o fisioterapeuta do SESMT Luiz Augusto Duarte trouxe para a reflexão os sinais físicos e comportamentais que costumam surgir quando o estresse ultrapassa os limites saudáveis. Ele explicou que mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, alterações de humor e até o aumento de vícios podem indicar que algo não vai bem.
Segundo Luiz Augusto, o estresse excessivo não se manifesta apenas no corpo, mas também nas relações e na forma como a pessoa se coloca no ambiente de trabalho. “A pessoa começa a mudar o comportamento, se afasta do convívio, chora com mais facilidade ou passa a apresentar atitudes que antes não existiam. Tudo isso são sinais de alerta”, destacou.

Ao falar sobre prevenção, o fisioterapeuta ressaltou que atitudes simples podem fazer diferença no dia a dia. Pausas conscientes, melhor gestão do tempo, movimento ao longo do expediente e convivência entre colegas ajudam a reduzir o impacto do estresse. “Às vezes, só o fato de se movimentar já é um grande benefício. A convivência também precisa ser cuidada, porque quando o ambiente muda, a mentalidade muda junto”, afirmou.
Para mostrar que o cuidado pode começar ali mesmo, Luiz Augusto conduziu exercícios laborais com os colaboradores, reforçando a atividade física como aliada na prevenção de doenças ocupacionais e no equilíbrio emocional.
O que sustenta nos dias difíceis
O ponto de convergência da manhã veio com a estreia da Sessão Clínica, novo projeto do NCP que levará, mensalmente, conteúdos voltados às práticas assistenciais para profissionais e estudantes da área da saúde, por meio das redes sociais e da comunidade HAB.
A primeira reflexão foi conduzida pelo médico psiquiatra Diego Moraes, que abordou o tema propósito no trabalho a partir do conceito de saúde mental da Organização Mundial da Saúde. Segundo ele, bem-estar não significa ausência de cansaço, mas a capacidade de lidar com o estresse cotidiano, ser produtivo e contribuir com a comunidade.
Para Diego, o propósito funciona como uma força motriz que sustenta o profissional mesmo diante do desgaste e das frustrações. “O propósito não é o que nos impede de cansar, é o que nos impede de desistir”, afirmou, ao explicar que a perda de sentido no trabalho está diretamente relacionada ao burnout.

Ele destacou ainda que o ambiente hospitalar reúne fatores de alta pressão — como sobrecarga de trabalho, responsabilidade constante e contato diário com o sofrimento — o que torna o cuidado com a saúde mental indispensável. Quando o trabalho perde o sentido, explicou, tudo passa a ser apenas sobrevivência, rompendo a conexão afetiva com o que se faz.
Ao defender um cuidado contínuo e integral, Diego ressaltou que saúde mental é indissociável da saúde física, social e espiritual. “Há momentos em que só o esforço individual não é suficiente. Buscar ajuda profissional também faz parte do cuidado”, pontuou, reforçando a importância do acompanhamento psicológico e psiquiátrico quando necessário.
Barcarena também viveu esse cuidado
Na unidade de Barcarena, a mesma programação foi vivida com igual sensibilidade. O espaço também se transformou em lugar de escuta, reflexão e pertencimento, permitindo que os colaboradores experimentassem o Janeiro Branco como um convite ao autocuidado.
Para a biomédica Lálissa Duarte, participar das rodas de conversa ajudou a olhar para si com mais carinho e reconhecer limites. Ela contou que o momento reforçou a importância do cuidado emocional como algo essencial, e não acessório. Segundo a colaboradora, as reflexões contribuíram para uma visão mais equilibrada da rotina e para compreender que o bem-estar é fundamental para manter a produtividade e a qualidade do trabalho.
Ao encerrar a campanha, os Hospitais Adventistas de Belém e Barcarena reforçam uma mensagem que atravessou todo o mês de janeiro: falar sobre saúde emocional não é pauta de calendário. É compromisso diário com o sentido do trabalho, com as pessoas e com a forma como o cuidado se constrói — todos os dias, mesmo quando ninguém vê.
