Entre plantões intensos, decisões que exigem precisão e rotinas atravessadas pela urgência do cuidado, o ambiente hospitalar impõe desafios constantes a todos que sustentam o funcionamento da instituição. A pressão diária, somada à responsabilidade compartilhada de garantir cuidado, segurança e continuidade dos serviços, não se encerra ao fim do expediente. Ela permanece, muitas vezes, em silêncio, impactando o equilíbrio emocional e a saúde mental de quem atua no hospital, seja na assistência direta, seja nos bastidores que mantêm a engrenagem em movimento.
Atentas a essa realidade, as unidades hospitalares de Belém e Barcarena da Adventist Health no Pará compreendem que cuidar de pessoas começa, necessariamente, por cuidar de quem cuida. É a partir desse entendimento que iniciativas como as Reuniões de Motivação para a Missão (RMMs) e os Pequenos Grupos (PGs) ganham espaço no cotidiano institucional, promovendo acolhimento, pertencimento e bem-estar no ambiente de trabalho.
Para o diretor espiritual Carlos Escopel, esse cuidado, especialmente no campo espiritual, exerce um papel fundamental no fortalecimento emocional de quem atua sob constante pressão.
“Acredito que cada momento em que paramos no hospital para cantar, meditar na Palavra e orar uns pelos outros se torna um divisor de águas. Em meio a tantas emergências, protocolos e demandas a serem cumpridas, podemos parar e lembrar que somos humanos e pertencemos a um grupo em que um pode ajudar o outro, ouvir o outro e amparar o outro. Alguns colaboradores podem se sentir solitários em meio a tantas pessoas, mas o Pequeno Grupo (PG) cria laços importantes. Ele auxilia aqueles que cuidam a também serem cuidados e amparados, lembrando-nos de que não temos apenas protocolos ou metas a cumprir, mas um propósito.”

Saúde mental começa no ambiente
Falar sobre saúde mental no trabalho é reconhecer que o ambiente exerce influência direta sobre o bem-estar emocional das pessoas. Relações saudáveis, espaços de escuta e práticas que valorizam o indivíduo contribuem para a prevenção do esgotamento emocional e para a construção de rotinas mais equilibradas. Em contextos hospitalares, onde a pressão é constante e o cuidado com o outro é permanente, investir em estratégias que promovam saúde emocional deixa de ser uma ação complementar e passa a integrar o compromisso institucional com a saúde integral.
Essa percepção é reforçada pela médica do trabalho com pós-graduação em psiquiatria, Gisele Araújo, que destaca a relação direta entre ambiente seguro, ações preventivas e saúde mental. Em sua avaliação clínica, quando o colaborador encontra um espaço de trabalho organizado, preventivo e atento às suas necessidades, os impactos positivos se refletem tanto no bem-estar emocional quanto na qualidade da assistência prestada.
“Trata-se de uma via de mão dupla: o ambiente de trabalho contribui para a preservação da saúde física e mental dos colaboradores, favorecendo a melhor execução das atividades laborais e a prevenção de acidentes. Da mesma forma, trabalhadores física e emocionalmente saudáveis fortalecem um ambiente mais equilibrado, colaboram para a prevenção de acidentes e doenças ocupacionais e promovem resultados laborais mais eficientes.”
Cuidado como valor da cultura organizacional
Ao incorporar a saúde mental como parte da cultura organizacional, a instituição reafirma que o cuidado não se limita à assistência prestada ao paciente. Ele se estende às relações de trabalho, à forma como as equipes são acolhidas e ao reconhecimento de que pessoas emocionalmente amparadas exercem suas funções com mais equilíbrio, segurança e propósito. Promover ambientes saudáveis, nesse contexto, expressa um posicionamento institucional que entende o bem-estar dos colaboradores como elemento essencial para a qualidade do cuidado e para a sustentabilidade das equipes.
Segundo a médica do trabalho, investir em prevenção, escuta e orientação contínua gera reflexos diretos no cotidiano das equipes.
“A prevenção é a base do sucesso de uma empresa. Todos ganham: empregados e empregadores. Além disso, o trabalho flui com mais qualidade e há maior mitigação de riscos, tanto de acidentes quanto de doenças ocupacionais — sejam físicas ou mentais”, afirma Gisele Araújo.
RMMs: espiritualidade e propósito no cotidiano de trabalho
No dia a dia hospitalar, criar espaços de pausa e reflexão torna-se parte do cuidado. As Reuniões de Motivação para a Missão (RMMs) cumprem esse papel ao integrar espiritualidade, propósito e convivência ao ambiente de trabalho. Mais do que momentos formais, essas reuniões favorecem a escuta, o alinhamento de valores e o fortalecimento dos vínculos entre as equipes, contribuindo para um clima organizacional mais humano e acolhedor.
Para Carlos Escopel, essa atenção ao aspecto espiritual está diretamente conectada à filosofia institucional.
“A atenção ao aspecto espiritual se conecta diretamente à filosofia institucional, pois nossa missão é servir, curar e salvar. De nada adianta focarmos apenas no paciente e nos esquecermos de que o cuidado começa por quem cuida”, ressalta. Segundo ele, a espiritualidade atua no núcleo da pessoa, fortalecendo motivações, valores e a capacidade de seguir em frente mesmo sob pressão. “No ambiente hospitalar, onde a exigência emocional é constante, cuidar da dimensão espiritual não é um extra, é fundamento.”

PGs como cuidado espiritual e fortalecimento emocional
Esse cuidado se aprofunda por meio dos Pequenos Grupos (PGs), que ampliam o acolhimento espiritual no ambiente institucional. Nos PGs, colaboradores encontram espaço para compartilhar vivências, fortalecer relações e encontrar apoio emocional e espiritual no convívio com o outro. Ao oferecer espaços de escuta, oração e convivência, os PGs contribuem para que os colaboradores se sintam amparados em suas fragilidades, fortalecendo a saúde emocional e o senso de pertencimento no ambiente de trabalho.
Na avaliação de Escopel, quando a instituição investe nesse cuidado, ela comunica, na prática, que o colaborador é visto em sua totalidade.
“Quando a instituição investe nesse cuidado, ela comunica que o colaborador não é apenas função ou desempenho, mas gente inteira. E gente cuidada cuida melhor”, afirma. Para ele, os PGs ajudam a transformar o cuidado em uma cultura viva e sustentável, na qual o fortalecimento interior do colaborador se reflete em um atendimento mais humano, compassivo e completo ao paciente.
Um compromisso permanente com a saúde integral
Ao integrar cuidado emocional, espiritual, preventivo e reconhecimento profissional, os Hospitais Adventistas de Belém e Barcarena reafirmam seu compromisso com uma visão ampliada de saúde. Esse cuidado se materializa no cotidiano e é percebido por quem vive a rotina institucional.
A colaboradora do setor administrativo do atendimento do Hospital Adventista de Belém, Márcia Cordeiro, relata que o ambiente de trabalho é marcado pelo acolhimento. Segundo ela, momentos simples, como orar com pacientes, reforçam o sentimento de valorização e propósito. Márcia também destaca as RMMs como espaços de gratidão, fortalecimento espiritual e aproximação entre colegas, além dos PGs, que considera momentos mais íntimos de reflexão, partilha e fortalecimento dos vínculos da equipe.
Para a colaboradora, sentir-se cuidada faz diferença direta na forma como se cuida do outro.
“As RMMs e os PGs são momentos em que a instituição se aproxima do colaborador no âmbito emocional e espiritual. Saber que você está sendo cuidado toca profundamente e interfere diretamente na forma como você cuida do próximo.”
Ao final, a experiência vivida por Márcia sintetiza o propósito institucional: quando o colaborador é cuidado em seu ambiente de trabalho, ele trabalha melhor, se fortalece emocionalmente e transmite esse cuidado a quem chega em busca de atendimento. Assim, o cuidado deixa de ser apenas uma diretriz e se torna uma prática cotidiana que sustenta a missão de servir, curar e salvar.
